Alergia alimentar: saiba mais sobre esse problema

Na última semana, entre os dias 8 e 14 de maio, foi celebrada a Semana de Conscientização sobre Alergia Alimentar. A Semana, tem como propósito aumentar a informação, estimulando a sensibilização e a conscientização das pessoas. Essa, foi criada pela instituição norte-americana Food Allergy & Anaphylaxis Network, hoje conhecida como FARE, em 1998, para chamar a atenção da população sobre as principais questões que envolvem a alergia alimentar.

No Brasil, ainda não existe uma data oficial de promoção da conscientização sobre a alergia alimentar, mas, de acordo com o Senado Federal, na última terça-feira, dia 15 maio, foi discutida a possibilidade da criação da Semana Nacional de Conscientização sobre a Alergia Alimentar em audiência pública da Comissão de Assuntos Sociais.

Para saber mais sobre as alergias alimentares, o Jornal Atualidades conversou com a Doutora em Gastroenterologia, Chefe do Serviço de Gastro Pediatria do Hospital da Criança Santo Antônio e Presidente da Sociedade de Pediatria do RS, Cristina Targa Ferreira e com o Dr. José Roberto Sartor, especialista em pdiatria, que nos trouxeram mais informações sobre o assunto. Primeiramente é importante destacar que alergia alimentar e intolerância são coisas diferentes:

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Dr.ª Cristina Targa Ferreira

INTOLERÂNCIA E ALERGIA ALIMENTAR:

“A intolerância é uma reação inespecífica a alimentos e que pode ocorrer por falta de uma enzima, como no caso da intolerância à lactose. Como somos mamíferos, nascemos com uma enzima chamada lactase para desdobrar o açúcar do leite: a lactose. Isso não ocorre nos primeiros anos de vida, pois temos essa enzima. Com o tempo, como não nos alimentamos mais de tanto leite, vamos perdendo essa enzima e terminamos por ser intolerantes à lactose, pois não temos mais a enzima para desdobrar o açúcar do leite. Portanto, a intolerância à lactose ocorre em adultos jovens e adultos e é dependente de quanta lactase temos. Cada pessoa pode ter um grau diferente de intolerância. E ela é quantidade dependente”, explica a Dr.ª Cristina.

A alergia alimentar, por sua vez, é um fenômeno imunológico, com reação de antígeno e anticorpo, que ocorre devido à imaturidade do sistema imunológico e é mais comum nos primeiros anos de vida. A Alergia alimentar mais comum é a alergia à proteína do leite de vaca, que pode apresentar-se de duas maneiras: alergia imediata – que é a mais grave – que ocorre nas primeiras duas horas após o contato com a proteína do leite. E a tardia (não-IgE mediada), que pode ocorrer várias horas depois.Nessas alergias temos que excluir a proteína do leite de vaca, portanto nada de leite pode ser consumido.As alergias imediatas demoram mais a passar e podem não curar. As tardias, em geral, curam nos primeiros anos de vida”, relata a Dr.ª Cristina.

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Dr. José Roberto Sartor

O Dr. José explica que a alergia alimentar pode aparecer em qualquer idade, os sintomas são os mesmos em adultos e crianças e variam de acordo com cada organismo. “Todos os órgãos podem ser envolvidos nos sintomas, que poder ser inchaço nos lábios, coceira, tosse, falta de ar, diarreia e em casos mais graves choque anafilático” comenta. Para identificar o problema o médico explica que a criança deve apresentar sintomas compatíveis com a intolerância de alimentos, em seguida deve ser feita a pesquisa laboratorial atrevés da dosagem das proteínas dos alimentos suspeitos e no caso de identificação do alimento alérgico, esse deve ser retirado da dieta por um período prolongado e de tempo em tempo, fazer novos testes para verificar a aceitação. As alergias mais comuns são à proteina do leite de vaca, soja, clara de ovo, frutos do mar, nozes, são as mais comuns enquanto que as mais graves são as alergias imediatas, que tem risco de desenvolver choque anafilático.

No caso da alergia ao leite, o Dr. José comenta que esse pode ser
substituído pelo leite de soja. Em casos especiais de alta sensibilidade, qualquer resíduo da proteína do leite pode desencadear reações graves. “Normalmente existe uma pré-disposição genética de alergia. Melhor maneira de prevenir a alergia à proteína do leite de vaca é retardar o contato da criança a este produto, prolongando o máximo possível o uso do leite materno”, destaca Dr. José.

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Josy Mankowski, seu filho Théo e o esposo Laercio Longhi

Josy Mankowski relata sobre a experiência com a alergia alimentar de seu filho Théo.

Como você descobriu que seu filho possui alergia alimentar?
Na noite do dia 20 de abril de 2015, eu e meu esposo nos preparávamos para sair de casa, quando o Théo, nosso filho de 3 meses na época, começou a apresentar manchas vermelhas pelo corpo e inchaço no rosto próximo a boca, orelhas e olhos. Neste momento, como pais inexperientes, logo contatamos o pediatra, que nos orientou a observar e que, de acordo com meu relato poderia ser uma doença viral, as manchas deveriam se espalhar pelo corpo, posteriormente teria febre. Porém quando desliguei o telefone, o Théo já apresentava vômito e diarreia incontrolavelmente, já não respondia com os olhos quando chamado. Imediatamente liguei novamente para o pediatra que se encontrava no hospital e solicitou que fossemos até lá, pois, pelo relato, os sintomas não eram mais de um quadro viral. Saindo de casa, ele já estava desacordado e chegando ao hospital, o mesmo precisou receber doses de adrenalina para ser reanimado. Foi neste momento que descobrimos que o nosso filho possuia APLV (alergia a proteína do leite de vaca), tendo e vista que minutos antes dos sintomas aparecerem ele havia ingerido aproximadamente 100 ml de leite industrializado a base de proteína de leite de vaca. Estávamos iniciando o processo de introdução ao suplemento alimentar, já que eu precisava me preparar para retornar ao trabalho, encerrando a licença maternidade. Além da APLV, com o passar o tempo descobrimos que o Théo é alérgico ao milho, limão e alguns medicamentos.

Qual é o tratamento?
A partir da descoberta da APLV, busquei ler e conversar com mães que haviam passado ou passam pela mesma situação. Iniciamos um acompanhamento e orientações com a gastropediatra, Dra Cristina Targa, a alergista Dra Caroline Gabriele Bernardes e com o pediatra Dr José Sartor. A cada seis meses realizamos exames do IGE total e IGE específico, onde descobrimos que o Théo possui alergia a proteína do leite de vaca mediada, e seus sintomas são imediatos, manifestados logo após a ingestão do alimento, e que seu grau é alto, onde pequenos contatos, como um beijo dado por alguém que consumiu o alimento ou utensílios que tenham sido usados para a preparação de alimentos tenham tido contado, são contaminados e causam reações nele.

Essa alergia o limita a desenvolver alguma atividade escolar ou social?
Uma pessoa alérgica que em pequenos contatos pode chegar ao choque anafilático, o caso do Théo, necessidade de alguns cuidados por parte das pessoas que convivem diretamente com ela. A escola (professores, coordenação pedagógica, coleguinhas, merendeiras e direção) é fundamental nesta caminhada. Além de inclui-lo em rotinas simples, como as refeições coletivas e higiene pessoal, por exemplo, precisa planejar a dinâmica das aulas evitando itens ou situações que possam gerar risco à saúde para ele e sua exclusão no grupo. O segundo choque anafilático dele aconteceu na escola, com 7 meses, quando uma mamadeira de um coleguinha caiu e respingou no olho, e rapidamente a professora nos contatou e encaminhamos para o hospital. Hoje na mochila dele, além dos itens tradicionais de criança, possui antialérgicos e adrenalina, pois em caso de necessidade, choque anafilático, um dos familiares que for até a escola deverá aplicar. Na sociedade em geral, temos um grande desafio, pois é comum as pessoas oferecerem a uma criança: pirulito, bala ou um doce. Precisamos estar atentos a qualquer contato que ele tenha com o leite de vaca e seus derivados, ou com pessoas que tenham tido este contato. Temos a limitação que todas as refeições que ele realiza não podem ter contato algum com estes alimentos, o que nos dificulta frequentar locais públicos (restaurantes, padarias, entre outros), e em todos os locais onde vamos com ele, temos uma mochila de medicamentos e alimentos.

Quais as principais consequências desta alergia?
Com a descoberta das alergias do Théo, tivemos muitas mudanças, posso relatar algumas como: na nossa casa não temos nenhum item que contenha leite, derivados ou até mesmo traços de leite; a leitura de rótulos e bulas fazem parte da nossa rotina; buscamos receitas e produtos alternativos para oferecer novos alimentos para ele e também para toda a família, pois queremos abraçar e beijar ele a todo momento sem culpa. Descobrimos que é possível fazer brigadeiro sem leite condensado, que intolerância a lactose não é alergia a proteína do leite de vaca e principalmente aprendemos todos os dias com o Théo, e não somente ele conosco.

Como a família se adaptou a esta alergia?
No início foi desesperador, pois nós pais imaginávamos, como seria uma criança sem poder comer chocolates, brigadeiros, frequentar festas de aniversários, conviver com coleguinhas no refeitório e nas brincadeiras coletivas. Mas com a parceira da escola, acompanhamento médico, apoio da família, compreensão dos colegas de trabalho, terapia e conversas com amigos, os desafios foram sendo superados e a rotina adaptada para uma nova realidade.

Mães, busquem informações incansavelmente e aprendam a lidar com situações de exclusão social. Sejam incansáveis em explicar a todos a diferença de tolerância e alergia, não fiquem constrangidas em dizer que seus filhos não podem aceitar alimentos de risco e principalmente ignorem quando ouvirem das pessoas que vocês tem frescura com seus filhos, as pessoas não sabem os riscos que seu filho passa. Conversem com as pessoas que estejam vivendo ou viveram situações parecidas com as suas, e principalmente reflitam que nossos filhos nos ensinam diariamente muito mais que nós os ensinamos.

Fotos: Divulgação | Anna Amorim

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