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  • Por: Henrique Haefliger
  • Contato: henrique.haefliger@hotmail.com
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Brasil 4.0? – Infelizmente um sonho distante

No mês de março deste ano, novamente se teve notícias onde o Banco Central reduziu a projeção do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro para o ano de 2019. Em contrapartida a queda da projeção, o Ministério da Economia preparou um pacote de medidas para fomentar a produtividade, aumentar o número de empregos e tentar destravar a economia do país. Tais ações originam-se em quatro planos, onde são eles:

1 –  ‘Simplifica’ (conjunto de 50 medidas para desburocratizar o setor produtivo);

2 – ‘Emprega Mais’ (novas estratégicas e investimentos na qualificação dos trabalhadores, criação de metas de empregabilidade e o desenvolvimento do novo sistema nacional de empregos – SINE com auxílio da Inteligência Artificial);

3 – ‘Pró-Mercados’ (medidas regulatórias para retirada das barreiras do funcionamento do mercado);

 4 – ‘Brasil 4.0’ (medidas para estimular a Indústria 4.0).

A meta é prevista para acontecer num prazo de no máximo 360 dias (FERNANDES, Adriana. ESTADÃO – 30/04/2019).

Sobre essas mediadas, com o ‘Brasil 4.0’ o governo pretende fomentar a Quarta Revolução Industrial, também conhecida como Industria 4.0 nas empresas. Todavia, tal medida quase ‘me fez cair da cadeira’, não enfatizo em dizer que ela chega a ser irônica referente ao cenário brasileiro. Mas vou explicar o motivo da minha repulsa.

Fatores como o aumento da demanda produtiva, novas tecnologias, inovações e principalmente a globalização, seguida com a constante mudança das necessidade e desejos dos consumidores, são alguns dos motivos que influenciam as empresas a se adequarem para atender essas novas transformações do mercado, de forma lucrativa e atendendo as expectativas dos clientes finais. Ademais, são por esses fatores que ao longo da história mundial, passamos por três Revoluções Industriais, onde que agora no século XXI, estamos adentrando na quarta fase tecnológica.

Engana-se quem pensa que uma Revolução Industrial ‘não impacta na sua vida’, muito pelo contrário, ela impacta completamente toda a sociedade, o setor econômico, cultural e político das regiões, pois tal revolução apresenta reflexo nos preços, custos, variedades, qualidade, tecnologia e outros elementos dos produtos e serviços. No entanto, apresenta maior impacto nas organizações, onde que cada fase tecnologia é seguida de tecnologias, metodologias, filosofias, objetivos, ferramentas, pilares e métodos de produção e administração. Portanto é essencial que uma empresa esteja sempre capacitada para identificar as oportunidades e mudanças tecnológicas do mercado. Buscar seguir e se adequar às novas metodologias e fases tecnologias é de suma importância para sobrevivência da empresa, pois, considera-se que quando uma organização chega em seu ponto de equilíbrio e a mesma subentende-se que não precisa mais buscar novos produtos, novos mercados, ou novas formas de gestão, a própria está à mercê da uma futura falência, sem possuir o conhecimento.

Portanto, já que cada revolução industrial tem suas características e suas diretrizes para gestão empresarial, vejamos no gráfico a baixo um breve histórico das origens das revoluções até o aparecimento das técnicas e conceitos no Brasil.

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Fonte: Carlos Henrique Haefliger, Projeto de TCC, 2019

Não vou introduzir-se nas características e técnicas de cada fase para não me delongar e sair do objetivo, mas observemos que a metodologia e as técnicas da produção em massa (Industria 2.0) chegaram no Brasil em 1956 cinquenta anos depois do surgimento do conceito nos Estados Unidos – padrões esses que até hoje são muito utilizados em diversos setores nas empresas brasileiras. Já os conceitos da Indústria 3.0 com a filosofia mundialmente respeitada e utilizada da Produção Enxuta (também conhecida como Lean Manufacturing ou Sistema Toyota de Produção) só iniciou sua difusão nas indústrias brasileiras a partir dos anos de 1980/85, 36 anos após sua origem no Japão, além disso, acrescento que até nos dias de hoje a maioria das empresas da nossa região – até mesmo do estado- ainda não possuem dizimado totalmente tal filosofia.

Chegamos no período atual, onde principiamos a Quarta Revolução Industrial – Industria 4.0 – no que se baseia ao tal ‘Brasil 4.0’ que o governo deseja fomentar. Observa-se no gráfico que essa fase tecnológica teve sua origem na Alemanha em 2012, já no Brasil há um ponto de interrogação, justamente porque essa fase ainda não é cabível no país. Sem dúvidas a Industria 4.0 é uma sofisticada fase tecnológica, onde é baseada e estruturada em cima dos conceitos e metodologias anteriores, incorporada com tecnologias de ponta, formando uma manufatura customizada e flexível. No entanto, o Brasil apresenta uma grande defasagem industrial, onde segundo o SEBRAE em um artigo publicado em 2016, o mesmo relata que no ritmo em que as indústrias e o governo se encontram, levaria mais de 100 anos para alcançar países desenvolvidos industrialmente, como por exemplo a Alemanha, no sentido de industrialização e implantação completa da Indústria 4.0. Ainda, em uma reportagem postada na Revista do CREA-RS na edição de setembro/outubro de 2018, Gil Giardelli (professor, palestrante e difusor dos conceitos de inovação e universo digital) afirma que no Brasil apenas 2% da indústria está preparada para essa nova geração, fato esse além de preocupante é um dos motivos pelos quais as empresas fecham no país.

Mas e se uma empresa deseja atualizar-se e adequar-se na metodologia da Industria 4.0, porem utiliza-se de princípios da 2.0, teoricamente poderia se inovar direto para 4.0 sem aplicar a 3.0? – A resposta é não, pois tal empresa sofreria muitas e profundas dificuldades, pois, segundo o Ministério da Indústria Comércio Exterior e Serviços (MDIC) e a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) empresas que desejam se adequar a quarta fase tecnológica, já devem ter implantado uma eficiente metodologia de gestão, assim como o Lean Manufacturing (indústria 3.0).

Mas ainda não para por aqui, em um artigo publicado pela EXAME em julho de 2017, o especialista em empreendedorismo Ricardo Mollo, apresentou dados divulgados pelo SEBRAE, onde os mesmos indicaram “… que 23% das micro e pequenas empresas fundadas fecham em até dois anos. Já o IBGE afirma que até 60% das empresas fundadas há 5 anos pararam suas operações”. Diante desses dados, os principais motivos das empresas fecharem são a falta de capacitação, experiência, clientes e capital de giro.

Contudo, não sou pessimista e muito menos contra a quarta Revolução Industrial no Brasil, pelo contrário sou favorável a esta fase tecnológica e suas tecnologias, de modo que sou apoiador das empresas que possuem viabilidade e capacidade para se adequar a indústria 4.0. No entanto, apenas não concordo com essa medida em relação ao cenário e o histórico industrial brasileiro, pois me preocupo com o restante do setor, ainda mais quando em nosso estado do Rio Grande do Sul 74,8% das empresas são micro empresas, 20,0% pequenas empresas, 4,3% médias empresas e apenas 0,9 % constituem de grandes empresas (segundo estatística do Portal da Industria até o ano de 2016). Portanto o governo brasileiro está querendo implantar uma metodologia em qual a grande maioria das empresas não estão preparadas e não possuem uma base sólida para se adequar. Conforme as informações apresentadas, teriam outras medidas mais importantes para serem estimuladas, assim como a resolução das fases anterior (primeiro massificar uma fase para promover a próxima); incentivo de novos empreendedores; criar programas de desenvolvimento local; incentivos e programas financeiros, entre outros.

Nos últimos tempos para o desenvolvimento do meu Projeto de TCC, onde o meu tema é justamente desenvolver um indicador para identificar em qual fase tecnológica as empresas se encontram, passei muito tempo estudando apenas as quatro Revolução Industriais (Indústria 2.0, 3.0 e 4.0) por isso da minha preocupação e contrariedade nesta ideia do governo. Já em relação ao governo, o meu grande medo é que o mesmo deseje apenas diminuir a defasagem entre os outros países e esqueça do real objetivo, que é impulsionar a industrialização e a economia. Sim, estamos atrasados, mas necessitamos ‘primeiro organizar o nosso cenário e depois evoluir com competência e estabilidade’.

(Fonte: Henrique Haefliger)

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