Gutti
  • Por: Guti Grafitti
  • Contato: gutigutigrafiti@gmail.com
  • Formação / Profissão: Professor

Cena Aberta

ANTONIO CALLADO

“Ensinem aos meninos um amor mais fundo e sem pressa. O Brasil faz planos de governo de 5 anos que duram 5 meses e planos de 3 anos que duram 3 dias. Presidentes eleitos por cinco anos possuem a pátria em sete meses, abotoam a braguilha e vão embora. E há presidentes que duram dois dias. [… ] Não satisfazem a pátria, não fecundam o país.”

Este mimoso texto é de um dos maiores escritores brasileiros. Antonio Callado foi também dramaturgo, jornalista. Um autor sempre comprometido com o Brasil, nos deixou grandes obras como A Madona de Cedro e Quarup. Neste livro, Callado deixa um formidável exemplo de como o Brasil tem seu problemas mais profundamente enraizados do que a gente imagina.

É com Quarup (1967) que Callado se consagra como autor. Considerado por alguns críticos o romance mais importante da década de 60, Quarup – nome de um ritual fúnebre dos povos indígenas do Xingu – tem como protagonista um padre que vai para o Norte do país catequizar os índios e, depois de uma série de choques e descobertas no Brasil profundo, se converte em militante contra a ditadura (1964- 1985).

Em passagem antológica, o protagonista, padre Nando, se envolve numa expedição para contatar tribos isoladas e demarcar o centro geográfico do Brasil. Ao fincarem o marco no lugar que acreditam ser o centro do País, os personagens descobrem que o solo onde pisavam era, em verdade, um formigueiro colossal, capaz de devorá-los.

A cena, uma recriação ficcional da expedição original realizada pelos irmãos Villas-Boas em 1958, é uma belíssima metáfora da busca incessante de um povo por sua identidade. Uma longa tradição de pensadores brasileiros, de Oliveira Vianna a Darcy Ribeiro, passando por nomes como Sergio Buarque, Caio Prado Jr. e o próprio Callado, buscaram ao longo do século XX desvendar a alma brasileira, interpretar a identidade nacional e cultural do País e produzir sentido sobre sua trajetória histórica.

Quarup é parte do esforço de Callado por entender o Brasil, com seus enormes dilemas e contradições. O romance é uma reflexão sobre a trajetória recente de uma gente que se fez como povo através de processos históricos brutais, banhados em sangue negro e indígena, e que é pobre embora viva em meio a uma imensa abundância de recursos naturais.

O que Callado parece querer apontar com a imagem de um formigueiro no coração do Brasil é que a identidade de um país não é algo dado e que, portanto, possa ser descoberto, desvendado. A identidade brasileira é movediça, como um formigueiro, e quem tenta fixá-la pode ser por ela devorado. Enfim, o Brasil de Antonio Callado não precisa ser descoberto, ele tem é que ser inventado, construído pelos milhares de brasileiros que, com seu trabalho e movimento, são a matéria desse solo.

Nascido em 1917, completaria 100 anos no ano passado. E continua sendo bem atual e, se vivo fosse, não estaria surpreso com o caos político brasileiro.

Aos 100 anos, Antonio Callado continua nos oferecendo novidades. Seu trabalho parece mais atual do que nunca. Através de seus romances, peças e reportagens é possível compreender melhor a trajetória recente do país, algo essencial para que possamos repensar nossos rumos e superar nossas contradições. Afinal, um país que já produziu homens como Antonio Callado não pode desistir de ser alguma coisa.


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