ju
  • Por: Jussara Stumm
  • Contato: jusstumm@gmail.com
  • Formação / Profissão: Professora

Chica Hirt

Ir até a casa da Chica Hirt, ( Gládis Wathier) era como adentrar num outro mundo .

Em primeiro lugar era um terreno imenso, limpo, com árvores, flores, nenhum espaço sem ser aproveitado.

Nada entregue ao desleixo. Tudo extremamente bem cuidado.

Ouviam-se os sapos. Nenhum outro barulho. Fora o coaxar, era o silêncio.

Ao chegar na casa, uma escada . Era ali que qualquer pessoa de bem, em sã consciência, ficaria, pois o que a casa oferecia ao visitante, na sua entrada, era um chão tão encerado, tão bem lustrado que confesso: se pisei nele duas vezes, foram muitas e na ausência da dona da casa.

O tanque tinha continuamente água correndo e ela caía enchendo a primeira divisão deste tanque; na outra a água caía no ralo. Fartura de água. Água límpida, fresca. Mesmo no verão, a gente respirava e sentia o frescor do ar.

Na plantação de mandioca, Chica e eu comíamos limão e laranja verde com sal. E ríamos. Ríamos até nos acabar.

Sua mãe impunha medo, nunca ousei me espalhar em sua presença.

E era assim na principal casa da Vila Sapo. Um reino encantado, cheio de mistérios, cheio de limites para nós crianças.

Até que 4 anos atrás, fomos visitar meus Yunis em El Soberbio .

Recomendo a todos  reencontros : façam uma viagem, mesmo pequena, com seu amigo .

Pergunto: Chica, porque tua mãe era tão braba?

E a história me é contada no trajeto Três Passos El Soberbio . Ela tinha câncer, sofreu por 9 anos .

Seu Hirt e ela,Dona Anilda casaram e tiveram Flávio , Chica e Deti .

Dona Anilda padece com o câncer até que, aos apenas 38 anos de idade, falece.

Seu Hirt, caminhoneiro, pega o Flávio e sentencia à Chica: cuidarás de tua irmã, Flávio e eu seguiremos no caminhão para conseguirmos quitar nossas dívidas com remédios e o hospital.

As compras serão feitas no bolicho do seu Almo Brust, na caderneta.

Durante 3 dias as duas pequenas , 15 e 12 anos respectivamente, ficam na casa da tia Dolca, depois voltam para a sua casa.

Durante algum tempo um tio as cuidava, mas na realidade, a Chica é quem se tornou a responsável, precocemente, pela casa dos Hirt.

Nesta viagem, relatou que passaram fome, que até hoje não pode com charque, pois era o que ela podia fazer com o pouco que a família dispunha.

Eu pasma, boquiaberta mesmo, pergunto: “Como nunca me falaste nada? Como nunca pediste ajuda?”.

Ao que Chica responde: “Ju, como? Vocês eram pobres também!”

Inconformada, eu reflito e ainda penso que sim, lá em casa a gente poderia ajudar.

Mas a vida da Chica se estabiliza. Depois de um ano, seu pai vende a casa. Ela e a Deti ficam na pensão da Melania Schneider, que ficava em frente do bolicho do seu Almo Brust.

Chica se casa com Waldir Wathier. Constroem suas vidas sem benesse alguma, somente com seu trabalho.

Este é um retalho desta colcha de lembranças. Ele serve não só para valorizarmos famílias, mas também para não pré julgarmos quem quer que seja.

A mãe da Chica era brava, muito brava. Pelo sofrimento.

Um comentário em “Chica Hirt

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *