baleia
  • Por: Roberto Bordini
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Crônica das pessoas da cidade

* Esta história quem me contou, porque participou dela, foi o Nani.

* Era uma noite fria de inverno. Dessas noites em que se forma uma neblina intensa por toda a cidade. O breu da noite, com seus tintos esbranquiçados de névoa, fazia-se lúgubre e misterioso. O silêncio apenas se interrompia pelo barulho repetitivo do gotejar dos beirais, no escorrer lento da umidade que se forma nos telhados. Era uma típica noite de inverno em Três Passos. Na rua, nenhuma alma. E as casas acobertando o sono bom dos munícipes. O bom sono dos justos.

* Dormiam todos, dizia eu? Mas não, claro que não. Num bar qualquer abrigavam-se os boêmios. Aqueles a quem nem o frio é empecilho para as pândegas notívagas. Tinham perdido o trem das onze, o trem das doze, o trem da uma, o trem das duas. No se anunciar das três horas, resolveram ir para casa, esses nossos circunstantes tenebrosos. E, antes de findar efetivamente a noite, tiveram a ideia magistral. Pegaram um manequim desses de loja, sabe? Esses bonecos que ficam na vitrine apresentando as roupas a serem vendidas pelas caixeirinhas bonitinhas tão ciosas de seu fazer. Vestiram o manequim com roupas velhas e compraram um monte de vidros de ketchup.

* No silêncio da noite vazia, o Novinha, que tinham um Chevette flamante (porque só naquele tempo se podia ter um Chevette flamante). Pegou de seu carro, acelerou violentamente e, chegando a boa velocidade, tão violentamente quanto acelerou, também freou o carro, fazendo os pneus guincharem no calçamento. Adredemente, alguém tinha tomado de uma lata de lixo, com um porrete e, durante a freada do Novinha, deu um murro violento na lata de lixo. Aí atiraram o boneco na calçada, todo lambuzado de Ketchup.

* Vocês já imaginaram o desfecho da história. Começou a sair gente de dentro de casa, enrolado nos cobertores, para ver o que havia acontecido. Esperando, claro, um acidente fantástico. E é melhor que não se diga o que disseram os circunstantes acerca de quem tinha feito semelhante sacanagem.


Um comentário em “Crônica das pessoas da cidade

  • 10 de julho de 2018 at 08:26
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    Boa estória daquelas que prende nossa atenção parágrafo por parágrafo até o final, uma mini novela, recomenda pro amigos. Amei. . .

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